Recebi o convite um pouco antes do mundial de Búzios, por
e-mail. Vários títulos mundiais, várias gerações.
A “nata” do bodyboarding mundial estava indo pra pororoca.
Está começando nosso ano e embalada por um bom resultado
no mundial fui encontrar minhas amigas e fazer um surf bem diferente
do habitual.
Saindo do Rio encontrei Mariana Nogueira,
Jéssica Becker, Maira Viana e o cinegrafista Rodrigo “Zoreba”.
Escala em Fortaleza onde embarcaram Isabela Sousa e o organizador
e surfista de maré Marcelo Bibita. Fomos recepcionados
em São Luis (MA) pelo presidente da Abraspo Noélio
Sobrinho e a atleta paraense Xandinha para uma churrascaria. Então
buscamos Neymara Carvalho e Naara Caroline para completar o time.
Muito chão ainda pela frente. Algumas horas de ônibus
e estávamos na cidade de Arari (MA), terra da melancia.
Fomos instalados na pousada e em algumas horas o barco iria partir.
Sorteamos as baterias e tratamos de dormir e descansar.
Acordamos 6 da manhã e partimos numa
viagem de 20 minutos de ônibus até o Rio Mearim.
Todos estavam muito alegres e ansiosos para surfar o fenômeno
do encontro das águas. Eu competi contra Mariana na quarta
e última bancada. As primeiras a caírem na água
foram Neymara e Mayra. E lá veio ela quebrando de um lado
ao outro da margem, lindo de se ver, a esquerda estava linda e
as duas surfaram muito bem. Neymara deu um rolo que empolgou todas.
Na segunda bateria caíram Naara e
Jèssica. A ondulação teria perdido a força
naquela bancada e Jéssica ficou pra trás da onda
logo no começo sendo desclassificada. Decepção
ao ver a falta de sorte dela. Pulam do barco Xandinha e Isabela
Sousa para a próxima bateria onde Isabela levou a melhor
depois de sentir a onda por alguns minutos até Xandinha
sair da onda e assim manobrar com facilidade.
Não sei em qual momento o Zoreba perdeu
a câmera pros três pretinhos (lenda local) mas logo
formou-se uma confusão de barcos e atletas em frente a
onda, eu e Mariana demoramos a pular perdendo grande parte da
onda. Mariana posicionou-se melhor e manobrou bem enquanto eu
ficava presa a espuma tentando passar a sessão e logo que
consegui vi Mariana ficando pra trás e logo segui o mesmo
trajeto. Que decepção! Fiquei triste por não
ter aproveitado a onda mas logo passou pois eu sabia que teria
mais dois dias pra surfar.
De volta ao hotel fomos dar entrevista na
rádio local. Depois fizemos uma reunião onde decidimos
que por não ter premiação em dinheiro deveríamos
todas aproveitar a primeira bancada, a mais forte com a maior
onda. Entramos todas juntas no dia seguinte. Jantamos e dormimos
muito cansadas.

(foto: Arquivo pessoal)
O segundo dia foi na minha opinião
o mais divertido e proveitoso de todos. Surfamos por muito tempo,
todas juntas na onda da pororoca, num espírito de equipe,
amizade e diversão que há tempos não sentia
dentro d´água! Somos todas muito amigas mas na hora
da competição amigos amigos, negócios a parte!
Não tinha nada daquilo, passávamos uma em cima da
outra, revezamos as manobras, sempre as gargalhadas, aproveitando
cada momento! Na volta muitas entrevistas e fotos para os fãs
que se amontoavam em meio ao som do forró do barzinho a
margem do Rio Mearim.
Um breve descanso na pousada e o almoço
na casa do prefeito da cidade. Sr. Leão estava a vontade
e nos recebeu com muito carinho. Estávamos tão a
vontade que logo o deck da casa dele virou palco de back-flips,
aéreos e muita risada. Muito churrasco e quando eu já
estava satisfeita ainda surgiu um almoço com peixe, pato
e carne de porco no hotel e ficamos horas rindo no quarto com
as histórias do Circuito Mundial. Dei tanta risada que
fiquei com dor de cabeça. Dormi e não saí
nem pra jantar. Perdi o jantar e a homenagem que fizeram em praça
pública num show com algumas mil pessoas. Mas não
tinha surfado a pororoca como queria e sabia que poderia surfar
e resolvi descansar.
Já tinha enfrentado a Pororoca do
Amapá com meu grande amigo Serginho Laus onde pude sentir
pela primeira vez o feeling Auera Aura. Ali era diferente pois
a cidade era perto da pororoca - no Amapá a gente ficava
o tempo todo no barco, mais selvagem mesmo, dormíamos em
redes, escutávamos o barulho dos animais e da pororoca
a noite- e dormindo na pousada em meio a tantos flashes eu já
nem esperava que teria que embrenhar-me em selvas e rios. E foi
assim mesmo que aconteceu no terceiro dia.
Acordamos mais tarde que os outros dias.
Deu tempo de tomar um café e escutar as histórias
da “noite anterior”. O clima era o mesmo, descontraído
e feliz. Rolou guerra de lama. Até a lancha em que eu,
Jéssica e Maira estavamos, encalhar. Todos longe, o orçamento
apertado. A equipe não dispunha de rádios, alguns
jets estavam dando problemas também e ficamos pra trás.
Bibita jogou-se na água e foi remando em direção
a pororoca. Estava descansada da noite anterior, tratei de pular
e tentar pegar a pororoca. Começamos remando pelo rio,
atravessamos uma bancada a pé pela margem, corri na lama,
onde atolei algumas vezes, corri em cima da bancada de areia dura,
andei mais um pouco dentro do rio e voltei a remar. Naquele momento
passou um Jet e já fazia meia hora que estava naquela que
parecia ser uma cena do programa No Limite. Pulava e gritava feito
louca para o Jet me pegar, mas o piloto deixou a Jéssica
e voltou buscar a Maíra. Fiquei louca de raiva!! E então
Bibita disse:
- Rema ela ta vindo! Se não remar
vai ficar pra trás.
E eu vi uma espuminha daquelas que você
vê uma criança de dois anos brincando na praia. Ela
estava acabando. Claro que voltei pra beira chorando feito uma
criança. Jéssica se sentia da mesma forma mas logo
a tristeza passou. No mesmo dia fomos embora. Ficou a vontade
de quero mais!
Texto: Lorraine Lima
A atleta Lorraine Lima tem o Patrocínio da Roxy, Apoio
Gênesis, Prefeitura de Curitiba e MGMOperadora.
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